Teste desenvolvido pela Fiocruz pode mudar tratamento da doença

POR — Quanto mais específico o tratamento, maior a eficiência e menor o risco de efeitos colaterais. Isso porque se reduz a possibilidade de receitar medicamentos que não trarão benefícios, mas nem por isso deixarão de causar efeitos adversos — observa a coautora do trabalho Tatiana Tilli, também do CDTS/Fiocruz.

Ela lembra que os efeitos colaterais da quimioterapia devastam a saúde dos pacientes com câncer e aumentam os custos do tratamento da doença. Nos Estados Unidos, onde há estimativas mais precisas, sabe-se que tratar os efeitos adversos da quimioterapia consome 70% do US$ 1 bilhão gastos por ano somente com o câncer de mama, o mais frequente em mulheres tanto aqui quanto lá.

— O peso dos efeitos colaterais assusta. No Brasil, ninguém sabe ao certo quanto custa um paciente com câncer, uma doença cara. Mas se sabe que 80% deles se tratam no Sistema Único de Saúde (SUS) porque não conseguem arcar com os custos do tratamento. Por isso, encontrar formas de reduzir sofrimento e também os custos é extremamente importante para a saúde pública — destaca Tatiana.

QUALIDADE DE VIDA

Os pesquisadores analisaram amostras de tumores de mama de 85 mulheres. Encontraram 75 genes alterados em todas elas. E para a metade deles já existem medicamentos aprovados. O teste analisa alterações nos tumores e as compara com amostras de tecidos saudáveis da mesma paciente. Segundo os cientistas, interferir nos 50% já promete melhorar a qualidade de vida das pacientes.

— Nosso foco não são as causas, mas o que está ativo no caos. Por isso, o diagnóstico foca no transcriptoma — diz Carels.

Transcriptoma é o nome dado ao conjunto dos RNAs numa célula. A grosso modo, é o resultado da expressão dos genes. O número e o tipo de genes ativos varia em função da natureza da célula. Uma célula da mama tem “ligados” genes diferentes dos acionados numa célula do fígado, por exemplo.

Num tumor, uma série de genes está alterada. Genes que deveriam estar desligados, funcionam. Outros que deveriam estar trabalhando, são silenciados. Células tumorais são um território de caos genético.

— Com a metodologia que desenvolvemos, podemos identificar no meio desse caos que genes são realmente importantes para a proliferação do tumor. E então buscar drogas que ataquem diretamente esses genes. Procuramos cinco alvos muito específicos, que podem variar de uma pessoa para outra. Ao atacar esses alvos, esperamos desativar as fontes de sobrevivência do tumor — explica Carels.

O projeto teve financiamento aprovado pelo edital “Apoio ao Empreendedorismo e Formação de Start-ups em Saúde Humana do Estado do Rio de Janeiro”, da Faperj. Com a crise no estado, o dinheiro nunca chegou. Mas o coordenador-geral do CDTS, Carlos Medicis Morel, espera que a parceria público-privada com o A.C. Camargo permita dar prosseguimento ao trabalho:

— A parceria público-privada é um mecanismo importante com ou sem crise.


Fonte: O Globo


 
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